10/09/2009

João Cabral e Vidas Secas



Especialmente para os meus alunos da turma Terminale.


Lendo este poema de João Cabral de Melo Neto lembrei-me da nossa conversa a respeito da linguagem (ou a ausência da) em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Vejam só:


O Sertanejo Falando

A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

2.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.



Um ótimo video sobre João Cabral pode ser visto aqui.

Um comentário:

O quarto do escritor disse...

É um falar sem medo e de rudeza natural, eis o sentir de Vidas Secas