31/08/08

ENEN 2008


Os gabaritos do ENEM 2008 já estão disponíveis:

http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2008/08/31/enem_2008_confira_gabarito_do_exame-548027058.asp

A redação teve um tema atual: A preservação da Floresta Amazônica. Bem parecido com o tema do exame simulado de ENEM que tivemos na escola. Estou torcendo pelos alunos do Liceu!

29/08/08

Conto para o fim de semana: Saramago


Já que ando passeando pelo mundo lusófono, não poderia deixar de mostrar a vocês um conto de José Saramago: O Conto da Ilha Desconhecida. Uma história com sabor de mar. Espero que gostem.

http://www.releituras.com/jsaramago_conto.asp

Para marcar na agenda: o filme baseado no romance de Saramago: Ensaio sobre a cegueira. A estréia no Brasil está prevista para o dia 12 de setembro.

http://www.guiadasemana.com.br/film.asp?/Ensaio_Sobre_a_Cegueira/CINEMA/RIO_DE_JANEIRO/&a=1&ID=11&cd_film=1935&cd_city=36

A ilustração foi tirada daqui: http://www.flickr.com/photos/bsarte/2263049465/

28/08/08

Escrevendo em português


Como os meus alunos (de Português como Língua Estrangeira) normalmente têm mais contato com a linguagem oral, procuro criar atividades que os façam exercitar a escrita. E a última tarefa proposta foi a criação (em duplas) de um blog. A maior parte da turma abraçou a idéia e se empenhou bastante. Alguns, superaram as minhas expectativas e elaboraram ótimos blogs.

A experiência confirma algo que eu já sabia. É muito mais fácil escrever sobre o que gostamos. Sem obrigação de ter que respeitar um tema, a escrita flui mais facilmente.

Parabéns a todos os alunos que se empenharam na atividade. Aqui estão alguns dos novos blogs na rede:

http://oparaisodoskate.blogspot.com

http://viagem-dos-sonhos.blogspot.com

http://malabargirls.blogspot.com

27/08/08

Pontuação


Há uns anos atrás, um livro sobre pontuação tornou-se bestseller na Inglaterra. Incrível, não? O livro chama-se Eats, shoots & leaves e até a autora, Lynn Truss, ficou espantada com o sucesso de vendas. O pequeno livro desencadeou uma onda de preocupação com a pontuação, debates, entrevistas e visitas a escolas, tornando óbvio que muita gente tinha dúvidas a respeito de pontuação.

Quando escrevemos, não contamos com os mesmos recursos da linguagem oral. E para que nosso texto seja claro e fluido, precisamos utilizar a pontuação. É ela que irá indicar ao leitor as pausas, as mudanças de idéias, as reflexões. Às vezes, noto em algumas redações que recebo que nem as regras básicas são respeitadas. Por exemplo, não se pode separar o sujeito de seu predicado, ou um verbo de seu complemento.

Se alguém possui alguma dúvida a esse respeito, pode consultar uma boa gramática ou os links abaixo. Os meus alunos podem sempre me perguntar pessoalmente.

http://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%ADrgula

http://sbi_web.ifsc.usp.br/manual_rich_redpr2aed.pdf


Para quem se interessar pelo livro da Lynn Truss:

http://www.guardian.co.uk/books/2004/apr/11/features.review1

http://en.wikipedia.org/wiki/Eats,_Shoots_&_Leaves

http://www.amazon.com/dp/1592400876/ref=nosim?tag=sealarksgoodbook&link_code=as3&creative=373489&camp=211189

E para quem quiser se divertir um pouquinho, uma velha história disponível na rede:

A IMPORTÂNCIA DA PONTUAÇÃO

Um homem rico estava muito mal. Pediu papel e pena. Escreveu assim:
Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres.


Morreu antes de fazer a pontuação. A quem deixava ele a fortuna? Eram quatro concorrentes.

O sobrinho fez a seguinte pontuação:

Deixo meus bens à minha irmã? Não!
A meu sobrinho.
Jamais será paga a conta do padeiro.
Nada dou aos pobres.


A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:

Deixo meus bens à minha irmã.
Não a meu sobrinho.
Jamais será paga a conta do padeiro.
Nada dou aos pobres.


O padeiro pediu cópia do original. Puxou a brasa pra sardinha dele:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.


Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação:

Deixo meus bens à minha irmã? Não!
A meu sobrinho? Jamais!
Será paga a conta do padeiro? Nada!
Dou aos pobres.

26/08/08

José Eduardo Agualusa



Meus alunos estão estudando um conto do escritor angolano José Eduardo Agualusa para a prova de BAC oral. Eles terão 20 minutos para expor suas idéias sobre o texto, caso este seja selecionado pelo examinador.

O conto A noite que prenderam Papai Noel é primoroso; é um daqueles textos que nos enriquecem após a sua leitura. Recomendo também os outros contos do livro Manual Prático de Levitação que têm o poder de nos transportar a outros mundos, outras realidades.


http://www.agualusa.info/cgi-bin/baseportal.pl?htx=/agualusa/div&booknr=45&page=livros&tpp=Contos&lg=pt&cs=brown

24/08/08

ENEM - Redação


Aos alunos candidatos ao ENEM:

Ainda há tempo de tirar alguma dúvida a respeito da prova, ou da redação. Visitem o site do ENEM ou perguntem-me diretamente.

http://www.enem.inep.gov.br/

22/08/08

Conto para o fim de semana

Diante da riqueza e variedade da literatura brasileira, nem sempre nos sobra tempo para ler os autores portugueses, angolanos, moçambicanos, etc. No mundo lusófono, há muita gente escrevendo maravilhosamente bem. Sem esquecer dos autores clássicos, como Eça de Queirós, Fernando Pessoa e José Saramago, que devem ser lidos sempre.

Para este fim de semana, selecionei um conto de uma autora portuguesa: Sophia de Mello Breyner (1919-2004). Divirtam-se.

Retrato de Mónica
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/contomes/19/texto.html

21/08/08

Escrever Cartas


Quando foi a última vez que você escreveu uma carta? Digo carta mesmo. Não um e-mail, mensagem ou torpedo. Conheço pessoas que nunca escreveram ou receberam uma carta. É pena, pois elas não sabem o prazer que dá receber uma carta pelos correios.

Pensei nisso ontem após a leitura da correspondência que Rubem Braga, Fernando Sabino, Guimarães Rosa e outros escritores mantiveram com a Clarice Lispector. Fiquei emocionada ao ler as cartas de Clarice para seu filho, na época um adolescente fazendo intercâmbio nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo que me emocionava, me sentia também um pouco invasora da privacidade da escritora. As cartas da Clarice estão em exposição no Centro Cultural Banco do Brasil até setembro para quem quiser lê-las.

Tenho uma querida amiga que ainda escreve cartas. Sei que parece incrível, mas nos dias de hoje ainda há pessoas assim. E como é bom receber suas cartas. Geralmente são várias páginas recheadas de notícias. É prazeroso ver a sua letra tão regular e harmoniosa no papel. E imagino o tempo que ela levou pensando em cada palavra, selecionando o que ia ou não ia me contar. Tento manter essa correspondência; embora mais demorada, sinto que nos ajuda a continuar a amizade apesar da enorme distância geográfica. É claro que tenho também os amigos que escrevem longos e-mails (eu mesmo o faço) e fico feliz quando isso acontece.

Mas, acho que há algo das cartas que se perde na rapidez dos e-mails. Não sei bem. Talvez justamente a lentidão, o escrever à mão, o refletir das idéias, o tempo empregado... Ou talvez o fato de saber que naquele papel escrito que viajou quilômetros e mais quilômetros há algo de concreto da pessoa que escreve. É como se um pedacinho dela tivesse vindo nos visitar. Mas, claro, vivemos numa época de urgências e as notícias precisam circular com rapidez. Mas será que a velocidade é sempre preferível? Será que as cartas já não têm mais razão de ser?

É interessante notar que ainda escrevemos cartas quando se trata de assuntos comerciais. Embora muitas vezes elas sejam enviadas por e-mail.

Central do Brasil
http://www.youtube.com/watch?v=pd_IWrvIaXc

Boss Ac, rapper português/caboverdiano
http://www.youtube.com/watch?v=w5GbjuXxTyc

19/08/08

Por que escrevo?


Clarice Lispector

“Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi essa que segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E, no entanto, cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever”.

Fonte: WALDMAN, B. Clarice Lispector. São Paulo, Brasiliense, 1988.


Lembrete importante:


Começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil-RJ a exposição Clarice Lispector: A Hora da Estrela e vai até 28 de setembro. Todos lá!

http://www44.bb.com.br/appbb/portal/bb/ctr2/rj/DetalheEvento.jsp?Evento.codigo=32965&cod=3

17/08/08

Escrever e escrever



Tenho “postado” aqui comentários de escritores sobre a escrita. Acho que uma reflexão, ainda que breve, se faz necessária.

O objetivo do blog é ajudar aos meus alunos a redigir melhor. Para o ENEM, para o Vestibular, para o BAC (exame de ensino médio francês). Mas sou ambiciosa e sonho além: examinar a escrita um pouco mais de perto, mostrar algumas de suas nuances para as quais nem sempre sobra tempo em sala. E desse modo, talvez, contribuir para que os alunos desenvolvam um interesse maior pela palavra escrita.

Escrever é muito mais que redigir 25 ou 30 linhas para passar numa prova. O ato da escrita é sempre um ato de coragem. Em situações de prova, o que se espera do aluno, além do domínio das regras gramaticais, é uma argumentação coerente, um vocabulário variado e bem utilizado, mas também (e principalmente) que ele partilhe com o leitor (o examinador) algumas de suas idéias a respeito do mundo (do tema proposto, no caso de uma prova). E é aí que localizo a maior dificuldade dos meus alunos.

Gustavo Bernardo, no seu livro Redação Inquieta (Formato Editorial, SP), nos diz que:

“...acontece de pensarmos borbotões de coisas, e se expressarmos o borbotão todo nos internam rapidinho. Uma expressão clara depende de gestos vigorosos de escolha, entre o que vai ser dito e o que não vai. Logo, o aprendizado da escolha, durante a vida do sujeito, determinará toda a clareza de sua expressão – ou não.

O problema é: quem escolhe se compromete. Quem escolhe se define. E certamente muitas e muitas pessoas preferem não se comprometer e não se definir... A falta da clareza espelharia a presença do medo. Pois facilitar a leitura do outro representa facilitar o seu acesso às nossas idéias, em última instância, a nós mesmos...”



Quando o aluno tem um tempo limitado para escrever sobre um tema que foi proposto por outra pessoa, o nível da sua motivação geralmente cai muito. Peço aos alunos para tentar enxergar esse momento (a redação para nota) como um treinamento para a vida futura. E tentar, ainda que o ato pareça assustador, demonstrar através da palavra escrita um pouco de quem eles realmente são.

15/08/08

Conto para o fim de semana



Um dos meus contos favoritos de Guimarães Rosa é este: Famigerado. Gosto desse conto porque nele a palavra tem um lugar central e o saber tem aquele sabor que nos fala Roland Barthes. Imperdível.

Bom fim de semana.

http://www.releituras.com/guimarosa_famigerado.asp

14/08/08

Bienal Internacional do Livro - SP



Começa hoje, 14 de agosto, a Bienal Internacional do Livro. Fica aqui a sugestão para quem puder visitar SP nessa época. A Bienal vai até o dia 24 de agosto.

http://g1.globo.com/Noticias/PopArte/0,,MUL723403-7084,00-BIENAL+DO+LIVRO+DE+SP+ABRE+NESTA+QUINTA+E+ESPERA+PUBLICO+DE+MIL.html

13/08/08

Por que você escreve?


Esta é uma das perguntas mais freqüentes que se costuma fazer a um escritor. Aqui está a resposta de Moacyr Scliar.

Por que escrevo?
Moacyr Scliar

“Quando criança, eu era adicto à literatura, não podia ficar sem ler. A minha conexão com a vida acontecia via literatura. Eu lia para aprender a viver, para saber o que fazer. É claro que isso provoca muitas desilusões, muitos choques, porque a vida não é literatura. Assim, quando comecei a escrever, foi porque lia. Outra razão é que meus pais foram grandes contadores de história. Numa noite quente como esta, as pessoas do meu bairro se reuniam para contar histórias, o que, desde muito cedo se incorporou em mim, passou a ser uma coisa que eu também queria fazer, só que à minha maneira, escrevendo”.

Fonte: Folha de São Paulo, 4/2/1996.

12/08/08

Quem leu o manual?


Todas as informações sobre a prova, inclusive como a redação será avaliada, podem ser encontradas no Manual do Candidato:

http://www.inep.gov.br/salas/download/enem/Cartilha_2008.pdf

10/08/08

A folha em branco...e agora?


Quando estamos em situação de prova, temos as dificuldades usuais mais a pressão para terminarmos a redação dentro do tempo permitido. Muitas vezes, vejo os alunos passarem à escrita do texto sem elaborarem um plano para a redação. No entanto, a etapa de planejamento é crucial. Poucas são as pessoas que, sem planejar, conseguem escrever de primeira um texto organizado, coerente e sem erros gramaticais.

E como planejar a redação?

Há várias formas de planejar e a escolha dependerá muito do estilo de cada um. Não há fórmulas mágicas ou receitas prontas. Aqui está apenas uma sugestão.

Após uma leitura atenta dos textos de apoio, o aluno, mesmo que de forma desorganizada, deve lançar no papel todas as suas idéias (opiniões, perguntas, comentários, citações, etc.) na folha de rascunho.

Essas idéias poderão então ser agrupadas de diversas maneiras: causas e conseqüências, diferenças e semelhanças, problemas e soluções, etc.

Passa-se então à seleção das idéias. Nem todas devem ou têm que ser aproveitadas no texto final. Após essa seleção, pode-se iniciar a elaboração do plano de redação.

No caso da dissertação, geralmente, segue-se a estrutura tradicional: introdução, desenvolvimento e conclusão. Como o espaço para a redação é previamente delimitado, esse planejamento é importantíssimo.

Continua...

08/08/08

Conto para o fim de semana


Conversava com os alunos sobre este conto de Machado de Assis: Um homem Célebre. O personagem, Pestana, é um compositor bem-sucedido de polcas. E infeliz. Infeliz porque intimamente desejava compor música erúdita e, assim, entrar para a galeria dos grandes compositores. O conto expõe, como bem mostrou José Miguel Wisnik no ensaio "Machado Maxixe" a fratura de dois mundos (a música popular e erudita)que se mesclam no Brasil.

Nesse conto, de forma brilhante, Machado mostra um pouco da vida cultural do final do século XIX.

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua000232.pdf

Mas, esse é um conto para se ler e ouvir. Aqui está uma polca composta por Chiquinha Gonzaga: "Atraente".

http://www.youtube.com/watch?v=_6ameIYuCwY


Bom fim de semana!

07/08/08

Ortografia


Alguns alunos pensam que escrever bem é sinônimo de conhecer a ortografia da língua. Isso é verdade até certo ponto. É claro que não se pode fazer uma omelete sem ovos. O domínio das normas gramaticais (inclusive da ortografia) é muito importante. Mas, não é tudo.

Para ajudá-los, aqui estão os 100 erros mais comuns nas redações. Atenção: algumas das regras foram modificadas com o novo acordo ortográfico. Oportunamente, falarei mais a respeito da nova reforma.

1. "Mal cheiro", "mau-humorado". Mal opõe-se a bem e mau, a bom. Assim: mau cheiro (bom cheiro), mal-humorado (bem-humorado). Igualmente: mau humor, mal-intencionado, mau jeito, mal-estar.

2. "Fazem" cinco anos. Fazer, quando exprime tempo, é impessoal: Faz cinco anos. / Fazia dois séculos. / Fez 15 dias.

3. "Houveram" muitos acidentes. Haver, como existir, também é invariável: Houve muitos acidentes. / Havia muitas pessoas. / Deve haver muitos casos iguais.

4. "Existe" muitas esperanças. Existir, bastar, faltar, restar e sobrar admitem normalmente o plural: Existem muitas esperanças. / Bastariam dois dias. / Faltavam poucas peças. / Restaram alguns objetos. / Sobravam idéias.

5. Para "mim" fazer. Mim não faz, porque não pode ser sujeito. Assim: Para eu fazer, para eu dizer, para eu trazer.

6. Entre "eu" e você. Depois de preposição, usa-se mim ou ti: Entre mim e você. / Entre eles e ti.

7. "Há" dez anos "atrás". Há e atrás indicam passado na frase. Use apenas há dez anos ou dez anos atrás.

8. "Entrar dentro". O certo: entrar em. Veja outras redundâncias: Sair fora ou para fora, elo de ligação, monopólio exclusivo, já não há mais, ganhar grátis, viúva do falecido.

9. "Venda à prazo". Não existe crase antes de palavra masculina, a menos que esteja subentendida a palavra moda: Salto à (moda de) Luís XV. Nos demais casos: A salvo, a bordo, a pé, a esmo, a cavalo, a caráter.

10. "Porque" você foi? Sempre que estiver clara ou implícita a palavra razão, use por que separado: Por que (razão) você foi? / Não sei por que (razão) ele faltou. / Explique por que razão você se atrasou. Porque é usado nas respostas: Ele se atrasou porque o trânsito estava congestionado.

11. Vai assistir "o" jogo hoje. Assistir como presenciar exige a: Vai assistir ao jogo, à missa, à sessão. Outros verbos com a: A medida não agradou (desagradou) à população. / Eles obedeceram (desobedeceram) aos avisos. / Aspirava ao cargo de diretor. / Pagou ao amigo. / Respondeu à carta. / Sucedeu ao pai. / Visava aos estudantes.

12. Preferia ir "do que" ficar. Prefere-se sempre uma coisa a outra: Preferia ir a ficar. É preferível segue a mesma norma: É preferível lutar a morrer sem glória.

13. O resultado do jogo, não o abateu. Não se separa com vírgula o sujeito do predicado. Assim: O resultado do jogo não o abateu. Outro erro: O prefeito prometeu, novas denúncias. Não existe o sinal entre o predicado e o complemento: O prefeito prometeu novas denúncias.

14. Não há regra sem "excessão". O certo é exceção. Veja outras grafias erradas e, entre parênteses, a forma correta: "paralizar" (paralisar), "beneficiente" (beneficente), "xuxu" (chuchu), "previlégio" (privilégio), "vultuoso" (vultoso), "cincoenta" (cinqüenta), "zuar" (zoar), "frustado" (frustrado), "calcáreo" (calcário), "advinhar" (adivinhar), "benvindo" (bem-vindo), "ascenção" (ascensão), "pixar" (pichar), "impecilho" (empecilho), "envólucro" (invólucro).

15. Quebrou "o" óculos. Concordância no plural: os óculos, meus óculos. Da mesma forma: Meus parabéns, meus pêsames, seus ciúmes, nossas férias, felizes núpcias.

16. Comprei "ele" para você. Eu, tu, ele, nós, vós e eles não podem ser objeto direto. Assim: Comprei-o para você. Também: Deixe-os sair, mandou-nos entrar, viu-a, mandou-me.

17. Nunca "lhe" vi. Lhe substitui a ele, a eles, a você e a vocês e por isso não pode ser usado com objeto direto: Nunca o vi. / Não o convidei. / A mulher o deixou. / Ela o ama.

18. "Aluga-se" casas. O verbo concorda com o sujeito: Alugam-se casas. / Fazem-se consertos. / É assim que se evitam acidentes. / Compram-se terrenos. / Procuram-se empregados.

19. "Tratam-se" de. O verbo seguido de preposição não varia nesses casos: Trata-se dos melhores profissionais. / Precisa-se de empregados. / Apela-se para todos. / Conta-se com os amigos.

20. Chegou "em" São Paulo. Verbos de movimento exigem a, e não em: Chegou a São Paulo. / Vai amanhã ao cinema. / Levou os filhos ao circo.

21. Atraso implicará "em" punição. Implicar é direto no sentido de acarretar, pressupor: Atraso implicará punição. / Promoção implica responsabilidade.

22. Vive "às custas" do pai. O certo: Vive à custa do pai. Use também em via de, e não "em vias de": Espécie em via de extinção. / Trabalho em via de conclusão.

23. Todos somos "cidadões". O plural de cidadão é cidadãos. Veja outros: caracteres (de caráter), juniores, seniores, escrivães, tabeliães, gângsteres.

24. O ingresso é "gratuíto". A pronúncia correta é gratúito, assim como circúito, intúito e fortúito (o acento não existe e só indica a letra tônica). Da mesma forma: flúido, condôr, recórde, aváro, ibéro, pólipo.

25. A última "seção" de cinema. Seção significa divisão, repartição, e sessão equivale a tempo de uma reunião, função: Seção Eleitoral, Seção de Esportes, seção de brinquedos; sessão de cinema, sessão de pancadas, sessão do Congresso.

26. Vendeu "uma" grama de ouro. Grama, peso, é palavra masculina: um grama de ouro, vitamina C de dois gramas. Femininas, por exemplo, são a agravante, a atenuante, a alface, a cal, etc.

27. "Porisso". Duas palavras, por isso, como de repente e a partir de.

28. Não viu "qualquer" risco. É nenhum, e não "qualquer", que se emprega depois de negativas: Não viu nenhum risco. / Ninguém lhe fez nenhum reparo. / Nunca promoveu nenhuma confusão.

29. A feira "inicia" amanhã. Alguma coisa se inicia, se inaugura: A feira inicia-se (inaugura-se) amanhã.

30. Soube que os homens "feriram-se". O que atrai o pronome: Soube que os homens se feriram. / A festa que se realizou... O mesmo ocorre com as negativas, as conjunções subordinativas e os advérbios: Não lhe diga nada. / Nenhum dos presentes se pronunciou. / Quando se falava no assunto... / Como as pessoas lhe haviam dito... / Aqui se faz, aqui se paga. / Depois o procuro.

31. O peixe tem muito "espinho". Peixe tem espinha. Veja outras confusões desse tipo: O "fuzil" (fusível) queimou. / Casa "germinada" (geminada), "ciclo" (círculo) vicioso, "cabeçário" (cabeçalho).

32. Não sabiam "aonde" ele estava. O certo: Não sabiam onde ele estava. Aonde se usa com verbos de movimento, apenas: Não sei aonde ele quer chegar. / Aonde vamos?

33. "Obrigado", disse a moça. Obrigado concorda com a pessoa: "Obrigada", disse a moça. / Obrigado pela atenção. / Muito obrigados por tudo.

34. O governo "interviu". Intervir conjuga-se como vir. Assim: O governo interveio. Da mesma forma: intervinha, intervim, interviemos, intervieram. Outros verbos derivados: entretinha, mantivesse, reteve, pressupusesse, predisse, conviesse, perfizera, entrevimos, condisser, etc.

35. Ela era "meia" louca. Meio, advérbio, não varia: meio louca, meio esperta, meio amiga.

36. "Fica" você comigo. Fica é imperativo do pronome tu. Para a 3.ª pessoa, o certo é fique: Fique você comigo. / Venha pra Caixa você também. / Chegue aqui.

37. A questão não tem nada "haver" com você. A questão, na verdade, não tem nada a ver ou nada que ver. Da mesma forma: Tem tudo a ver com você.

38. A corrida custa 5 "real". A moeda tem plural, e regular: A corrida custa 5 reais.

39. Vou "emprestar" dele. Emprestar é ceder, e não tomar por empréstimo: Vou pegar o livro emprestado. Ou: Vou emprestar o livro (ceder) ao meu irmão. Repare nesta concordância: Pediu emprestadas duas malas.

40. Foi "taxado" de ladrão. Tachar é que significa acusar de: Foi tachado de ladrão. / Foi tachado de leviano.

41. Ele foi um dos que "chegou" antes. Um dos que faz a concordância no plural: Ele foi um dos que chegaram antes (dos que chegaram antes, ele foi um). / Era um dos que sempre vibravam com a vitória.

42. "Cerca de 18" pessoas o saudaram. Cerca de indica arredondamento e não pode aparecer com números exatos: Cerca de 20 pessoas o saudaram.

43. Ministro nega que "é" negligente. Negar que introduz subjuntivo, assim como embora e talvez: Ministro nega que seja negligente. / O jogador negou que tivesse cometido a falta. / Ele talvez o convide para a festa. / Embora tente negar, vai deixar a empresa.

44. Tinha "chego" atrasado. "Chego" não existe. O certo: Tinha chegado atrasado.

45. Tons "pastéis" predominam. Nome de cor, quando expresso por substantivo, não varia: Tons pastel, blusas rosa, gravatas cinza, camisas creme. No caso de adjetivo, o plural é o normal: Ternos azuis, canetas pretas, fitas amarelas.

46. Lute pelo "meio-ambiente". Meio ambiente não tem hífen, nem hora extra, ponto de vista, mala direta, pronta entrega, etc. O sinal aparece, porém, em mão-de-obra, matéria-prima, infra-estrutura, primeira-dama, vale-refeição, meio-de-campo, etc.

47. Queria namorar "com" o colega. O com não existe: Queria namorar o colega.

48. O processo deu entrada "junto ao" STF. Processo dá entrada no STF. Igualmente: O jogador foi contratado do (e não "junto ao") Guarani. / Cresceu muito o prestígio do jornal entre os (e não "junto aos") leitores. / Era grande a sua dívida com o (e não "junto ao") banco. / A reclamação foi apresentada ao (e não "junto ao") Procon.

49. As pessoas "esperavam-o". Quando o verbo termina em m, ão ou õe, os pronomes o, a, os e as tomam a forma no, na, nos e nas: As pessoas esperavam-no. / Dão-nos, convidam-na, põe-nos, impõem-nos.

50. Vocês "fariam-lhe" um favor? Não se usa pronome átono (me, te, se, lhe, nos, vos, lhes) depois de futuro do presente, futuro do pretérito (antigo condicional) ou particípio. Assim: Vocês lhe fariam (ou far-lhe-iam) um favor? / Ele se imporá pelos conhecimentos (e nunca "imporá-se"). / Os amigos nos darão (e não "darão-nos") um presente. / Tendo-me formado (e nunca tendo "formado-me").

51. Chegou "a" duas horas e partirá daqui "há" cinco minutos. Há indica passado e equivale a faz, enquanto a exprime distância ou tempo futuro (não pode ser substituído por faz): Chegou há (faz) duas horas e partirá daqui a (tempo futuro) cinco minutos. / O atirador estava a (distância) pouco menos de 12 metros. / Ele partiu há (faz) pouco menos de dez dias.

52. Blusa "em" seda. Usa-se de, e não em, para definir o material de que alguma coisa é feita: Blusa de seda, casa de alvenaria, medalha de prata, estátua de madeira.

53. A artista "deu à luz a" gêmeos. A expressão é dar à luz, apenas: A artista deu à luz quíntuplos. Também é errado dizer: Deu "a luz a" gêmeos.

54. Estávamos "em" quatro à mesa. O em não existe: Estávamos quatro à mesa. / Éramos seis. / Ficamos cinco na sala.

55. Sentou "na" mesa para comer. Sentar-se (ou sentar) em é sentar-se em cima de. Veja o certo: Sentou-se à mesa para comer. / Sentou ao piano, à máquina, ao computador.

56. Ficou contente "por causa que" ninguém se feriu. Embora popular, a locução não existe. Use porque: Ficou contente porque ninguém se feriu.

57. O time empatou "em" 2 a 2. A preposição é por: O time empatou por 2 a 2. Repare que ele ganha por e perde por. Da mesma forma: empate por.

58. À medida "em" que a epidemia se espalhava... O certo é: À medida que a epidemia se espalhava... Existe ainda na medida em que (tendo em vista que): É preciso cumprir as leis, na medida em que elas existem.

59. Não queria que "receiassem" a sua companhia. O i não existe: Não queria que receassem a sua companhia. Da mesma forma: passeemos, enfearam, ceaste, receeis (só existe i quando o acento cai no e que precede a terminação ear: receiem, passeias, enfeiam).

60. Eles "tem" razão. No plural, têm é assim, com acento. Tem é a forma do singular. O mesmo ocorre com vem e vêm e põe e põem: Ele tem, eles têm; ele vem, eles vêm; ele põe, eles põem.

61. A moça estava ali "há" muito tempo. Haver concorda com estava. Portanto: A moça estava ali havia (fazia) muito tempo. / Ele doara sangue ao filho havia (fazia) poucos meses. / Estava sem dormir havia (fazia) três meses. (O havia se impõe quando o verbo está no imperfeito e no mais-que-perfeito do indicativo.)

62. Não "se o" diz. É errado juntar o se com os pronomes o, a, os e as. Assim, nunca use: Fazendo-se-os, não se o diz (não se diz isso), vê-se-a, etc.

63. Acordos "políticos-partidários". Nos adjetivos compostos, só o último elemento varia: acordos político-partidários. Outros exemplos: Bandeiras verde-amarelas, medidas econômico-financeiras, partidos social-democratas.

64. Fique "tranquilo". O u pronunciável depois de q e g e antes de e e i exige trema: Tranqüilo, conseqüência, lingüiça, agüentar, Birigüi.

65. Andou por "todo" país. Todo o (ou a) é que significa inteiro: Andou por todo o país (pelo país inteiro). / Toda a tripulação (a tripulação inteira) foi demitida. Sem o, todo quer dizer cada, qualquer: Todo homem (cada homem) é mortal. / Toda nação (qualquer nação) tem inimigos.

66. "Todos" amigos o elogiavam. No plural, todos exige os: Todos os amigos o elogiavam. / Era difícil apontar todas as contradições do texto.

67. Favoreceu "ao" time da casa. Favorecer, nesse sentido, rejeita a: Favoreceu o time da casa. / A decisão favoreceu os jogadores.

68. Ela "mesmo" arrumou a sala. Mesmo, quanto equivale a próprio, é variável: Ela mesma (própria) arrumou a sala. / As vítimas mesmas recorreram à polícia.

69. Chamei-o e "o mesmo" não atendeu. Não se pode empregar o mesmo no lugar de pronome ou substantivo: Chamei-o e ele não atendeu. / Os funcionários públicos reuniram-se hoje: amanhã o país conhecerá a decisão dos servidores (e não "dos mesmos").

70. Vou sair "essa" noite. É este que desiga o tempo no qual se está ou objeto próximo: Esta noite, esta semana (a semana em que se está), este dia, este jornal (o jornal que estou lendo), este século (o século 20).

71. A temperatura chegou a 0 "graus". Zero indica singular sempre: Zero grau, zero-quilômetro, zero hora.

72. A promoção veio "de encontro aos" seus desejos. Ao encontro de é que expressa ma situação favorável: A promoção veio ao encontro dos seus desejos. De encontro a significa condição contrária: A queda do nível dos salários foi de encontro às (foi contra) expectativas da categoria.

73. Comeu frango "ao invés de" peixe. Em vez de indica substituição: Comeu frango em vez de peixe. Ao invés de significa apenas ao contrário: Ao invés de entrar, saiu.

74. Se eu "ver" você por aí... O certo é: Se eu vir, revir, previr. Da mesma forma: Se eu vier (de vir), convier; se eu tiver (de ter), mantiver; se ele puser (de pôr), impuser; se ele fizer (de fazer), desfizer; se nós dissermos (de dizer), predissermos.

75. Ele "intermedia" a negociação. Mediar e intermediar conjugam-se como odiar: Ele intermedeia (ou medeia) a negociação. Remediar, ansiar e incendiar também seguem essa norma: Remedeiam, que eles anseiem, incendeio.

76. Ninguém se "adequa". Não existem as formas "adequa", "adeqüe", etc., mas apenas aquelas em que o acento cai no a ou o: adequaram, adequou, adequasse, etc.

77. Evite que a bomba "expluda". Explodir só tem as pessoas em que depois do d vêm e e i: Explode, explodiram, etc. Portanto, não escreva nem fale "exploda" ou "expluda", substituindo essas formas por rebente, por exemplo. Precaver-se também não se conjuga em todas as pessoas. Assim, não existem as formas "precavejo", "precavês", "precavém", "precavenho", "precavenha", "precaveja", etc.

78. Governo "reavê" confiança. Equivalente: Governo recupera confiança. Reaver segue haver, mas apenas nos casos em que este tem a letra v: Reavemos, reouve, reaverá, reouvesse. Por isso, não existem "reavejo", "reavê", etc.

79. Disse o que "quiz". Não existe z, mas apenas s, nas pessoas de querer e pôr: Quis, quisesse, quiseram, quiséssemos; pôs, pus, pusesse, puseram, puséssemos.

80. O homem "possue" muitos bens. O certo: O homem possui muitos bens. Verbos em uir só têm a terminação ui: Inclui, atribui, polui. Verbos em uar é que admitem ue: Continue, recue, atue, atenue.

81. A tese "onde"... Onde só pode ser usado para lugar: A casa onde ele mora. / Veja o jardim onde as crianças brincam. Nos demais casos, use em que: A tese em que ele defende essa idéia. / O livro em que... / A faixa em que ele canta... / Na entrevista em que...

82. Já "foi comunicado" da decisão. Uma decisão é comunicada, mas ninguém "é comunicado" de alguma coisa. Assim: Já foi informado (cientificado, avisado) da decisão. Outra forma errada: A diretoria "comunicou" os empregados da decisão. Opções corretas: A diretoria comunicou a decisão aos empregados. / A decisão foi comunicada aos empregados.

83. Venha "por" a roupa. Pôr, verbo, tem acento diferencial: Venha pôr a roupa. O mesmo ocorre com pôde (passado): Não pôde vir. Veja outros: fôrma, pêlo e pêlos (cabelo, cabelos), pára (verbo parar), péla (bola ou verbo pelar), pélo (verbo pelar), pólo e pólos. Perderam o sinal, no entanto: Ele, toda, ovo, selo, almoço, etc.

84. "Inflingiu" o regulamento. Infringir é que significa transgredir: Infringiu o regulamento. Infligir (e não "inflingir") significa impor: Infligiu séria punição ao réu.

85. A modelo "pousou" o dia todo. Modelo posa (de pose). Quem pousa é ave, avião, viajante, etc. Não confunda também iminente (prestes a acontecer) com eminente (ilustre). Nem tráfico (contrabando) com tráfego (trânsito).

86. Espero que "viagem" hoje. Viagem, com g, é o substantivo: Minha viagem. A forma verbal é viajem (de viajar): Espero que viajem hoje. Evite também "comprimentar" alguém: de cumprimento (saudação), só pode resultar cumprimentar. Comprimento é extensão. Igualmente: Comprido (extenso) e cumprido (concretizado).

87. O pai "sequer" foi avisado. Sequer deve ser usado com negativa: O pai nem sequer foi avisado. / Não disse sequer o que pretendia. / Partiu sem sequer nos avisar.

88. Comprou uma TV "a cores". Veja o correto: Comprou uma TV em cores (não se diz TV "a" preto e branco). Da mesma forma: Transmissão em cores, desenho em cores.

89. "Causou-me" estranheza as palavras. Use o certo: Causaram-me estranheza as palavras. Cuidado, pois é comum o erro de concordância quando o verbo está antes do sujeito. Veja outro exemplo: Foram iniciadas esta noite as obras (e não "foi iniciado" esta noite as obras).

90. A realidade das pessoas "podem" mudar. Cuidado: palavra próxima ao verbo não deve influir na concordância. Por isso : A realidade das pessoas pode mudar. / A troca de agressões entre os funcionários foi punida (e não "foram punidas").

91. O fato passou "desapercebido". Na verdade, o fato passou despercebido, não foi notado. Desapercebido significa desprevenido.

92. "Haja visto" seu empenho... A expressão é haja vista e não varia: Haja vista seu empenho. / Haja vista seus esforços. / Haja vista suas críticas.

93. A moça "que ele gosta". Como se gosta de, o certo é: A moça de que ele gosta. Igualmente: O dinheiro de que dispõe, o filme a que assistiu (e não que assistiu), a prova de que participou, o amigo a que se referiu, etc.

94. É hora "dele" chegar. Não se deve fazer a contração da preposição com artigo ou pronome, nos casos seguidos de infinitivo: É hora de ele chegar. / Apesar de o amigo tê-lo convidado... / Depois de esses fatos terem ocorrido...

95. Vou "consigo". Consigo só tem valor reflexivo (pensou consigo mesmo) e não pode substituir com você, com o senhor. Portanto: Vou com você, vou com o senhor. Igualmente: Isto é para o senhor (e não "para si").

96. Já "é" 8 horas. Horas e as demais palavras que definem tempo variam: Já são 8 horas. / Já é (e não "são") 1 hora, já é meio-dia, já é meia-noite.

97. A festa começa às 8 "hrs.". As abreviaturas do sistema métrico decimal não têm plural nem ponto. Assim: 8 h, 2 km (e não "kms."), 5 m, 10 kg.

98. "Dado" os índices das pesquisas... A concordância é normal: Dados os índices das pesquisas... / Dado o resultado... / Dadas as suas idéias...

99. Ficou "sobre" a mira do assaltante. Sob é que significa debaixo de: Ficou sob a mira do assaltante. / Escondeu-se sob a cama. Sobre equivale a em cima de ou a respeito de: Estava sobre o telhado. / Falou sobre a inflação. E lembre-se: O animal ou o piano têm cauda e o doce, calda. Da mesma forma, alguém traz alguma coisa e alguém vai para trás.

100. "Ao meu ver". Não existe artigo nessas expressões: A meu ver, a seu ver, a nosso ver.


Essa lista foi encontrada aqui:
http://www.algosobre.com.br/redacao/100-erros-comuns-em-redacao.html

06/08/08

Leitura é fundamental


Lá no início do blog eu comentei brevemente sobre a importância da leitura para quem deseja escrever bem. E esse tópico é tão importante que eu resolvi voltar a ele. Nas minhas andanças pela rede, encontrei esse texto imperdível da Ana Maria Machado que divido agora vocês.


LER E CRESCER
Ana Maria Machado


Com as novas descobertas científicas sobre o funcionamento do cérebro e a constatação de que o DNA dos chimpanzés e dos humanídeos têm muito mais semelhanças do que se imaginava, a própria conceituação do humano vai se modificando. Não se aceita mais a definição simples que apresentava o homem como o único animal racional - na medida em que observação de comportamento animal e experiências em laboratório vão comprovando diferentes níveis de capacidade de raciocínio em seres de outras espécies.

Tampouco se aceita, simplesmente, que esse diferencial entre nós e eles se situe apenas na capacidade do uso da linguagem. Essas percepções começam a ser mais refinadas. Caracteriza-se a humana como linguagem articulada, assinalando uma marca de distinção. Mais que isso, torna-se necessário refinar a descrição do tipo de uso que os humanos fazem da linguagem, acentuando que se trata de uma linguagem simbólica, conotativa e capaz de abstrações e ambiguidades e não apenas denotativa, capaz de indicar onde pode estar o alimento ou existir perigo. Com isso, amplia-se o âmbito em que a linguagem passa a ser examinada, indo-se mais além da simples emissão de sons significativos pelo aparelho fonador. Passa-se a englobar também manifestações visuais, sonoras e corporais. O que conta, então, não são apenas os idiomas, mas também as pinturas, as danças, a música, as diferentes formas de representação, a escultura, a arquitetura - em duas palavras, a criação e a transmissão da cultura.

Pouco a pouco, essas próprias noções vão também ganhando matizes que as caracterizem melhor, permitindo definir o humano com mais exatidão. Percebe-se que não basta que certas manifestações sejam expressas ou criadas. Precisam ser transmitidas. E transmitidas além do simples nível do instinto, em que um pássaro como o joão-de-barro não precisa ensinar os filhotes a fazer de barro a sua casinha, enquanto o beija-flor tece sua intricada trama de gravetos e pendura seu ninho em perfeito equilíbrio na ponta mais fina de um galho sem precisar que ninguém lhe dê instruções. Como um peixe não precisa um mapa para lhe ensinar o caminho rio acima na hora da desova.

A marca do humano está numa transmissão de experiências muito mais complexa, capaz de atingir quem vive muito longe ou ainda não nasceu. Em alguma forma de superação dos limites da oralidade. Numa produção de textos e no correpondente consumo textual. Por isso, para crescer, a humanidade necessitou da escrita, capaz de fixar a memória e empurrá-la para mais adiante e para mais distante, por sua vez estimulando que as descobertas seguintes pudessem encontrar parte do caminho já caminhado, e não necessitassem refazer novamente todo o processo de tentativas e erros já percorrido por outros seres da mesma espécie.

Com a inacreditável capacidade humana de ter idéias, sonhar, imaginar, observar, descobrir, constatar, enfim, refletir sobre o mundo e com isso ir crescendo, essa produção textual vem se ampliando ao longo da história. As conquistas tecnologicas e a democratização da educação trazem a esse acervo uma multiplicação exponencial, que começa a afligir homens e mulheres de várias formas. Com a angústia do excesso. A inquietação com os limites da leitura. A sensação de hoje ser impossível abarcar a totalidade do conhecimento e da experiência (ingênuo sonho de outras épocas). A preocupação com a abundância da produção e a impossibilidade de seu consumo total por meio de um indivíduo. O medo da perda. A aflição de se querer hierarquizar ou organizar esse material. Enfim, constatamos que a leitura cresceu, e cresceu demais.

Ao mesmo tempo, ainda falta muito para quanto queremos e necessitamos que ela cresça. Precisa crescer muito mais. Assim, multiplicamos campanhas de leitura e projetos de fomento do livro. Mas sabemos que, com todo o crescimento, jamais a leitura conseguirá acompanhar a expansão incontrolável e necessariamente caótica da produção dos textos, que se multiplicam ainda mais, numa infinidade de meios novos. Muda-se então o foco dos estudiosos, abandona-se o exame dos textos e da literatura, criam-se os especialistas em leitura, multiplicam-se as reflexões sobre livros e leitura, numa tentativa de ao menos entendermos o que se passa, já que é um mecanismo que recusa qualquer forma de domínio e nos fugiu ao controle completamente.

Falar em domínio e controle a propósito da inquietação que assalta quem pensa nessas questões equivale a lembrar um aspecto indissociável da cultura escrita, e nem sempre trazido com clareza à consciência : o poder.

Ler e escrever é sempre deter alguma forma de poder. Mesmo que nem sempre ele se exerça sob a forma do poder de mandar nos outros ou de fazer melhor e ganhar mais dinheiro (por ter mais informação e conhecer mais), ou sob a forma de guardar como um tesouro a semente do futuro ou a palavra sagrada como nos mosteiros medievais ou em confrarias religiosas, seitas secretas, confrarias de todo tipo. De qualquer forma, é uma caixinha dentro da outra: o poder de compreender o texto suficientemente para perceber que nele há várias outras possibilidades de compreensão sempre significou poder - o tremendo poder de crescer e expandir os limites individuais do humano.

Constatar que dominar a leitura é se apropriar de alguma forma de poder está na base de duas atitudes antagônicas dos tempos modernos. Uma, autoritária, tenta impedir que a leitura se espalhe por todos, para que não se tenha de compartilhar o poder. Outra, democrática, defende a expansão da leitura para que todos tenham acesso a essa parcela de poder.

Do jeito que a alfabetização está conseguindo aumentar o número de leitores, paralelamente à expansão da produção editorial que está oferecendo material escrito em quantidades jamais imaginadas antes, e ainda com o advento de meios tecnológicos que eliminam as barreiras entre produção e consumo do material escrito, tudo levaria a crer que essa questão está sendo resolvida. Será? Na verdade, creio que ela se abre sobre outras questões. Que tipo de alfabetização é esse, a que tipo de leitura tem levado, com que tipo de utilidade social? Portanto, deixo a pergunta no ar, para ser objeto de nossas reflexões posteriores, e proponho um corte para passarmos a falar do assunto desde outro ângulo completamente diverso.

A mensagem da Unesco no Dia do Livro de 2002 resume o papel do livro na sociedade atual, afirmando:

“Receptáculo da memoria e vetor da criatividade, o livro é, ao mesmo tempo, depósito de palavras e plataforma para a troca de idéias. Peça única e, por sua vez, objeto reproduzível, criador de sentido e provocador de idéias, obra original e espelho de uma sociedade, constitui um patrimônio que, partindo das raízes próprias de uma tradição cultural determinada, não pára de crescer, sozinho, em interação com outras tradições e no diálogo permanente com o outro.”

Descrição perfeita de um processo desejável. E aparentemente tranqüilo, absolutamente tranqüilo. Como uma planta que cresce no campo. Como algo que cresce vegetativamente, dizemos. Bem diferente do que cada um de nós experimentou em seu próprio crescimento na adolescência - o crescimento que mais recordamos, já que o tremendo crescimento intrauterino ou na primeira infância não ficou guardado em nossa memória.

Mas como eu disse que ia mudar de ângulo e de abordagem, mudo também de área de linguagem. E passo a falar de literatura infantil. Afinal é na infância que nós mais ouvimos a pergunta crucial, que deveria ser feita no início do estabelecimento de qualquer programa de alfabetização ou de fomento à leitura, se entendermos que ler é crescer. Aquela perguntinha, que toda criança conhece : “o que você quer ser quando crescer?”

Ah, sim, porque toda criança quer crescer. Todo indivíduo que se alfabetiza também quer. Mas quer crescer e ser o quê? Um bom leitor de manuais de instruções para fazer funcionar bem a fábrica onde trabalha? Um leitor de itinerários de ônibus e nomes de ruas? Um leitor de páginas esportivas de jornais, folhetos de cartomantes e suplementos coloridos de promoções de eletrodomésticos? Um leitor de mensagens no correio eletrônico, capaz de navegar por diferentes sites na internet? Um leitor capaz de discernir quais fontes são confiáveis ou um que acha que basta estar num livro ou num site para que a palavra seja sagrada? Um leitor de notícias de jornais e revistas? Um leitor dos artigos que analisam essas notícias nos jornais e revistas? Um leitor dos livros que capacitam a redigir essas análises? Um leitor de textos poéticos, filosóficos e literários que suscitam perguntas tais que não são totalmente respondidas por apenas uma vertente dessas análises e exigem sempre mais, sem aceitar idéias feitas, frases feitas, slogans e estereótipos? Até onde cada um quer crescer?

A leitura pode ser a chave do tamanho - para usar a expressão que Monteiro Lobato criou, e empregou para dar o título de um de seus livros mais fascinantes. Mas tamanho não basta. Da Inquisição medieval a tantas outras formas de pensamento ditatorial e de manipulação de textos, temos visto ao longo da história em que medida o enorme crescimento do poder de certas palavras escritas pode ser usado para esmagar a humanidade. Aliás, de certo modo, é mesmo de uma reação contra isso que trata o livro A Chave do Tamanho: de uma tentativa, por parte dos pequeninos (as crianças e os brinquedos), para acabar com os males causados pelos grandes -- os adultos, os poderosos que levaram o mundo à guerra (no caso, à Segunda Guerra Mundial). A menor de todas as personagens, a boneca Emília, junto com o boneco Visconde de Sabugosa, decide terminar com todas as guerras e parte para a ação. Uma simples boneca de pano toma essa decisão após estar sendo alimentada com as idéias e valores transmitidos pelas histórias que Dona Benta vinha contando desde o primeiro volume e que incluíam contos de fadas, fábulas de Esopo e de La Fontaine, contos e lendas do folclore brasileiro, mitologia greco-romana, elementos de cultura de massa (como Popeye e Gato Félix), narrativas das Mil e Uma Noites, as Aventuras do Barão de Munchausen, obras de literatura infantil como Alice e Peter Pan, discussões com filósofos gregos, um mergulho num grande clássico ocidental como Dom Quixote, noções de física e geologia, de gramática e aritmética, um apanhado geral da História da humanidade e da evolução da tecnologia. É com o acúmulo de todo esse conhecimento, transmitido de forma crítica e questionadora, que uma bonequinha cresce ao ponto de questionar os grandes e poderosos, e se dispõe a fazer alguma coisa para acabar com todas as guerras, de uma vez por todas. Ao desligar a Chave do Tamanho e reduzir as pessoas a dimensões minúsculas, mais do que encenar uma alegoria redutora da humanidade à sua verdadeira grandeza, Emilia está comprovando seu próprio crescimento e mostrando a terrível capacidade crítica e questionadora que desenvolveu desde que lhe deram a pílula falante, e com isso ela teve acesso à palavra, lá no início de todas as aventuras.

Leitora atenta (ou ouvinte atenta) de toda a literatura (oral e escrita) que Dona Benta traz aos netos a cada serão, a boneca já tem então como se apoiar em um cabedal cultural acumulado. Já tem uma consciência expandida e demonstra sua autonomia que a faz afirmar “Eu sou a Independência ou Morte”. Cresceu ao ponto de se converter numa criatura permanentemente crítica e, com isso, põe em crise as formas tradicionais de dominação dos grandes. Aliás, as palavras crítica e crise são da mesma família semântica e, segundo alguns etimologistas, em sua passagem do grego ao latim contaminaram outra palavra que nos interessa aqui - crescer.

É claro que ler instruções mecanicamente, sem pensar de modo crítico, também poderia trazer algum crescimento. E traz. Outra personagem da literatura infantil nos mostra isso de modo claro. Bastou ler o rótulo BEBA-ME num vidrinho e Alice bebeu e cresceu.

“Antes de chegar à metade da garrafa, já estava com a cabeça batendo no teto, e teve que se encolher para não quebrar o pescoço.” (...) “Continuou crescendo cada vez mais. Daí a pouco, teve que se ajoelhar no chão. Em um minuto já não havia mais espaço nem para isso...”

Evidentemente, não é esse o ideal de crescimento que se deseja, descontrolado e imobilizador, paralisando o leitor em posições sem nenhum conforto, oriundas de uma leitura meramente passiva, não questionadora. O jeito é ser dono da própria palavra, criar a própria história, conseguir crescer para assumir a própria autoria, como a própria Alice percebe em seguida ao afirmar no parágrafo imediato: “Deviam escrever um livro sobre mim, bem que deviam! Quando eu crescer, eu mesma vou escrever...”

Para isso, vivendo uma sucessão de variações de tamanho, a cada nova experiência que se soma, a partir de sua curiosidade e disponibilidade ao risco, a menina afirma sua capacidade de enfrentamento. Depois de diminuir ao comer um bolinho - sem instruções - ela volta a crescer ao provar do cogumelo e constata :

“Bom, pelo menos minha cabeça ficou livre desta vez! - disse ela, toda feliz.”

Crescer deve servir mesmo para isso -- para libertar a cabeça. Caso contrário, não faz sentido aumentar. E com a cabeça livre e as experiências de crescimento crítico acumuladas, passa a ser possível ir controlando o próprio crescimento - como faz a menina, alternando as mordidinhas nos dois lados do cogumelo até atingir o tamanho que queria e que mantém até perto do final da história, quando ela torna a crescer num momento em que se introduz outra variável. Essa, inesperada: o direito de crescer.

No tribunal, na hora do julgamento e das decisões da autoridade sobre vida e morte, enquanto ouve uma longa leitura de um comprido rolo de pergaminho, e examina criticamente o que os jurados escrevem em suas lousas, após refletir que “muito poucas meninas de sua idade saberiam o significado’ de certas palavras, absolutamente imersa numa situação em que cada parágrafo fala de leitura e de escrita, de cartas e depoimentos, de listas e documentos, de paródias e pastiches, de alusões e citações, ela desanda a crescer novamente. Seu crescimento começa a incomodar os outros e um personagem a seu lado lhe diz :

“- Você não tem direito nenhum de crescer aqui dentro.

- Deixe de bobagem - disse ela, mais segura. - Você sabe que também está crescendo.

- É, mas numa velocidade razoável...”

Claro. O que incomoda não é apenas que ela cresça. É que deixe os outros para trás, graças à velocidade do crescimento de quem está vendo criticamente toda aquela situação de escrita e leitura pública e não respeita a autoridade, rejeitando uma ordem narrativa espúria que insiste em apresentar primeiro a sentença e depois o veredito. Ridicularizando o absurdo do que o Rei chama de “prova mais importante que trouxeram até agora”, um texto tão ambíguo gramaticalmente que nem ao menos se consegue saber o que diz, ela enfrenta:

“Pois sim - disse Alice (que tinha crescido tanto nos últimos minutos que não tinha mais medo de interrompê-lo) - Se algum dos jurados for capaz de explicar do que se trata. Dou um doce a quem conseguir. Eu acho que é só um amontoado de eles, elas, tus e nós, muito confuso e sem um pingo de sentido.”

Desnudando a falta de sentido da palavra dos poderosos, ela cresce de uma vez, parte para o enfrentamento, reduz rei e rainha a meras cartas do baralho, a folhas secas caindo de uma árvore. Mas traz de volta sua experiência transfigurada, capaz de ser transmitida de imediato à irmã - mesmo mais velha e maior - e ser guardada para o seu próprio futuro, quando fosse mulher feita, capaz de passar a palavra a gerações posteriores :

“E como reuniria em volta de si outras crianças, seus filhos, e faria seus olhinhos ficarem brilhantes e curiosos, com muitas histórias estranhas, talvez mesmo o sonho que tivera com o País das Maravilhas muito tempo antes.”

Esse crescimento é que é muito interessante, sacudido por um turbilhão de intertextualidade, feito de leituras anteriores que alimentam novas escritas e novas leituras, acrescentando uma soma de novas experiências e uma visão crítica capaz de fazer questionamentos. Uma leitura que não aceita passivamente as palavras sagradas ou o poder inquestionável e autoritário do escrito, mas se propõe a uma atividade intensa sobre o texto ao decifrá-lo, acrescentando-lhe riquezas trazidas de outras leituras e contaminando-o com outros textos capazes de fecundá-lo sempre.

Claro, para isso a primeira condição é que o texto lido não seja estéril. Que, pelo contrário, seja fértil, cheio de promessas e potencial. Daí a importância fundamental do livro que vai constituir o ponto de partida da leitura. Daí a crescente insistência que fazemos hoje na qualidade das seleções oferecidas à criança pela escola, por exemplo, por políticas de leitura que não podem se limitar a pretender modificar estatísticas e enfatizar quantidades. Daí ser essencial ter clareza sobre que tipo de leitura se quer construir. Ou sobre o que se entende por crescimento trazido pelo livro.

Não basta, portanto, ler manuais de instruções, textos fechados, clichês, frases-feitas, tecnicismos superficiais, descrições óbvias, conselhos rasteiros. Esse tipo de leitura só serve para fortalecer obediências cegas, consolidar servidões, reforçar preconceitos. Ou seja, contribui para formar rebanhos e assegurar uma mentalidade conformista e dócil, disposta a aceitar padrões impostos. Pode ser extremamente útil aos poderosos, garantindo-lhes sociedades de consumo passivo, seja para comprar qualquer produto seja para apresentar comportamentos fanáticos em política ou religião, seja para ir à guerra contra outros povos ou outras etnias.

Aliás, é sempre bom lembrar: ninguém nasce com preconceitos. Eles não são naturais. Pelo contrário, todos eles são adquiridos no contato cultural, na repetição de estereótipos, na ruminação mental de idéias prontas (próprias ou alheias), que passam a ser respeitadas como sagradas, que não admitem ser questionadas ou cotejadas com uma ampla variedade de pontos de vista diferentes.

O melhor antídoto contra a inoculação passiva de preconceitos e da ideologia alheia é a recusa do estereótipo e a busca do protótipo - aquele texto novo, prenhe de possibilidades insupeitadas e das surpresas (lingüísticas, estilísticas e de pensamento) que caracterizam a boa qualidade literária. Aqui e agora, não nos cabe entrar em discussões dispersivas sobre o que é literatura, afinal de contas, da mesma forma que pretendemos evitar cair na armadilha de ficar dando listas de livros, ou fórmulas de reconhecer bons textos. Não é assim que as coisas se passam. Da mesma forma que amar se aprende amando, ler se aprende lendo.

Só a exposição freqüente e continuada a obras de arte vai apurando o gosto das pessoas, ensinando a apreciar essas obras e reconhecer o que elas são, refinando o senso estético do usuário, acostumando-o a padrões mais exigentes. Aí se chega ao ponto a que a escritora Ruth Rocha alude quando diz que sabe que um livro é bom, porque ele lhe dá uma espécie de arrepio na alma, ou um súbito aperto no coração. Ou, de tanto alguém ler e ter mais intimidade com diferentes textos, começa a distinguir entre eles qual é que tem qualidades literárias, essa coisa indefinível que ninguém consegue precisar com exatidão mas que, como enfatizou Roger Chartier, tem a ver com a capacidade de despertar reapropriações múltiplas por parte de diferentes leitores - ou por parte do mesmo leitor em diferentes momentos.

O outro tipo de leitura (ou de texto), aquele que não permite apropriações múltiplas e inesperadas por novos leitores e ciscunstâncias diferentes, não leva ao crescimento. Pelo contrário, é limitador e redutor. Nem toda leitura faz crescer, afinal de contas...

Não é isso que se precisa ler, nem é assim que se deveria ler para crescer.

Mais uma vez, a literatura infantil nos fala de um personagem que associa literatura e crescimento - Peter Pan.

Muita gente acha que ele encarna o mito da eterna infância, da criança que não quer crescer, mas prefere viver para sempre no paraíso lúdico dos brinquedos sem fim. Não se trata disso - nem essa criança existe. Essa é uma visão simplista e falsa, nostálgica de uma pretensa idade de ouro infantil, um mundo irresponsável e despreocupado, que nunca existiu. Toda criança quer crescer. A tragédia de Peter Pan é que ele não consegue crescer, porque ele não tem memória. Esquece de tudo, vive num eterno presente. Por isso precisa vir buscar reforço e salvação na memória alheia, ouvindo toda noite as historias que a sra Darling conta aos filhos, e, em seguida, levando-as para os Meninos Perdidos na Terra do Nunca – um lugar sem tempo, como o próprio nome nos recorda. Até que convence Wendy a ir para lá com ele, a fim de desempenhar esse papel de contadeira de histórias e guardiã da memória.

“Lá, em meio a várias aventuras, vai ficando evidente que ele não consegue lembrar nem mesmo de coisas recentes, forçado a viver no suplício inconsciente da eterna repetição. Quando a perda da memória começa a ameaçar seus irmãos, Wendy percebe que tem de lhes contar a história deles mesmos e de seu passado, fazê-los recordar (re-cordar, trazer de novo ao coração), para que possam sobreviver e não sejam condenados a viver apenas na eterna novidade, uma atrás da outra, num interminável presente.

Essa é a questão fundamental que Peter Pan coloca em discussão. É isso que faz com que seja um dos livros mais atuais que as crianças podem ter à sua disposição hoje, neste tempo de modismos sucessivos, celebridades instantâneas e esquecimentos profundos.”

(Como e por que ler os clássicos universais desde cedo, Ed. Objetiva, 2002)

Poucas histórias nos falam de modo tão radical sobre o papel fundamental desempenhado pela narrativa, pela literatura e pela história no crescimento. Poucas vezes se mostrou com tanta clareza como é profundo o esforço cognitivo da criança, sua busca de saber quem é e quem pode vir a ser, por meio da palavra transmitida. É um livro que nos deixa essa herança contundente: estar alijado da memória e da narrativa é um fardo pesado, um motivo de sofrimento e angústia para a criança, algo que ela não é capaz de formular com clareza e consciência, mas a deixa perdida e sem referências. Traz um universo aflitivo, carregado de infelicidade. Faz com que alguém como Peter Pan, em estado de confusão mental, chegue ao ponto de às vezes achar que não cresce porque não quer, apresentando repetição como se fosse novidade e confundindo liberdade com atoleiro e paralisia. A clareza de Wendy é fundamental para que as crianças se salvem e possam crescer, na vida real, esta nossa, histórica, na Terra do Sempre, onde a palavra conta histórias, preserva a memória e combate o esquecimento, onde a narrativa compartida é capaz de diminuir sofrimentos (como a psicanálise conhece tão bem), onde todas as possibilidades de crescimento existem. Até mesmo a possibilidade de sonhar com a Terra do Nunca como um lugar maravilhoso -- e inesquecível.

Peter Pan intui tudo isso quando parte à procura de histórias, quando parte voando toda noite de sua ilha, em busca da história que ouvirá do lado de fora da janela da família Darling e trará rapidamente para os Meninos Perdidos, antes que a esqueça. Toda criança tem esse impulso e costuma pedir histórias, quer que os adultos as repitam, de novo e de novo. Como se cada um soubesse que depende dessas narrativas para poder crescer e poder ir construindo sua própria história, sabendo de onde veio, quem é, para onde pode querer ir. Não fechemos portas e janelas para esses pequenos, de espíritos ávidos pela palavra. Oferecer às criancas narrativas de qualidade, dar-lhes a oportunidade de ter contato com textos literários dos quais elas possam se apropriar e passem a ter como seus, propiciar-lhes boas leituras, enfim, tudo isso constitui um ato de amor e uma responsabilidade social dos adultos.

Cada um de nós pode encontrar outros exemplos de personagens amados que, ao longo da literatura infantil, nos tem mostrado que é possível e necessário confiar na inteligência infantil para que ela alavanque o crescimento. Essa é a leitura que importa estimular e fomentar -- a que é capaz de apostar na capacidade do leitor de crescer e se superar. A que não se limita a lhe oferecer na bandeja uma papinha mastigada, fácil de engolir. A leitura que celebra a perspectiva de uma tomada de consciência, e que substitui o autoritarismo das palavras que dão ordens e exigem ser obedecidas, pela autoria compartilhada entre o momento da escrita e o da leitura, entendida como uma decifração inteligente e uma recriação ativa, capaz de afirmar a autonomia de cada um no ato mágico de ler.

Ou, nas belas palavras de Emilia Ferreiro:

“Había una vez un niño...que estaba con un adulto... y el adulto tenía un libro... y el adulto leía. Y el niño, fascinado, escuchaba como la lengua oral se hace lengua escrita. La fascinacion del lugar preciso donde lo conocido se hace desconocido. El punto exacto para asumir el desafío de conocer y crecer.”

(Emilia Ferreiro, Pasado y presente de los verbos leer y escribir, Fondo de Cultura, Mexico 2001)



* Palestra proferida pela autora na XIII Feira Internacional do Livro em Havana, Cuba, em fevereiro de 2004.

Este texto eu encontrei aqui:
http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/

05/08/08

Dissertação & Argumentação


A dissertação e a argumentação aparecem muitas vezes como se fossem iguais nos livros didáticos. Porém, uma e outra têm características próprias.

A dissertação tem como objetivo principal expor, explicar ou interpretar idéias. Na dissertação explicamos o que sabemos (ou o que pensamos que sabemos) sobre um assunto: a nossa opinião é dada apenas sobre o que é ou o que parece ser.

Já na argumentação, além de expor o assunto, tentamos principalmente formar a opinião do leitor e tentamos convencê-lo de que estamos com a verdade.

Argumentar é, em última análise, convencer ou tentar convencer mediante a apresentação de razões, em face da evidência de provas e à luz de um raciocínio coerente e consistente...(Othon M. Garcia in Comunicação em Prosa Moderna).

Mas o que é uma evidência?

Segundo Descartes, evidência é o critério da verdade.

http://forumfilosofia.wordpress.com/2008/01/29/rene-descartes-metodo-duvida-pensamento/

Evidência é a “certeza manifesta, a certeza a que se chega pelo raciocínio (evidência da razão) ou pela apresentação dos fatos (evidência de fato), independemente de toda teoria”. (Othon M. Garcia)

Há cinco tipos mais comuns de evidência:

1. Os fatos
2. Exemplos
3. Ilustrações
4. Dados estatísticos
5. Testemunho

E como faço para recolher evidências e redigir uma boa argumentação? É nesse momento que entra a importância da leitura. Geralmente, os temas para redação vêm acompanhados de textos de apoio. Entretanto, será muito difícil para um aluno redigir uma redação sobre um tema totalmente desconhecido e cujo primeiro contato está sendo a prova de redação. Um conselho? Leiam. E reflitam.

Aqui estão alguns artigos, cuja leitura pode ajudá-los na hora da prova.

Atividade: retirem de cada texto algumas evidências que possam sustentar uma possível argumentação sobre o tema.

Desmatamento da Floresta Amazônica:

http://www.conservacao.org/publicacoes/megadiversidade/16_Fearnside.pdf

O uso da Internet no Brasil:


http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u425794.shtml

http://tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI1784983-EI4802,00.html

Alimentos transgênicos:

http://www.consumidorbrasil.com.br/consumidorbrasil/textos/cidadao/alimentostrans.htm

Países BRIC

http://www.inesc.org.br/noticias/noticias-gerais/2008/maio/paises-do-bric-intensificam-lacos-e-discutem-crise-de-alimentos/

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080527/not_imp178588,0.php

Poluição ambiental


http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2008/07/31/china_apresenta_plano_de_emergencia_contra_poluicao_nos_jogos-547498495.asp

http://drauziovarella.ig.com.br/entrevistas/dpoluicao4.asp

04/08/08

Que coisa!








“Mexe qualquer coisa dentro doida, já qualquer coisa doida dentro mexe...” Caetano Veloso.




A canção de Caetano Veloso utiliza maravilhosamente bem a palavra "coisa". Entretanto, como costumo repetir aos meus alunos, essa palavrinha tão utilizada na linguagem oral deve ser evitada numa redação para o ENEM ou vestibular. Uma das razões é porque na linguagem escrita, principalmente numa dissertação, devemos ser claros e precisos. Afinal, não contamos com os recursos da linguagem oral (expressões faciais, gestos, olhares, tom de voz, etc.) para mostrar ao nosso interlocutor o que exatamente queremos dizer. “Coisa” é uma palavra-coringa, imprecisa e que pode indicar um vocabulário limitado. E numa prova, você tem apenas 25 linhas para impressionar bem o examinador.

Um exercício: substitua a palavra coisa nas frases abaixo e observe como elas tornam-se bem mais precisas. Talvez você precise alterar a concordância nominal/verbal.

1. Não concordo com essa coisa do jeito que está.
2. Nosso filho sempre pede muitas coisas no natal.
3. O show do Caetano foi ótimo, ele mostrou muitas coisas novas.
4. Ela escreve muito bem. Gosto muito das coisas dela.
5. O professor ensinou uma coisa muito difícil.
6. O desmatamento da Floresta Amazônica é uma coisa que atinge a todos nós.
7. A coisa mais difícil da língua chinesa é a pronúncia

03/08/08

Redação Nota 10

Esta redação obteve a nota máxima no ENEM em 2006.

Quando o sol da cultura está baixo, até os mais ínfimos seres emitem luz

Marcel Proust, grande escritor e exemplo máximo de uma vida dedicada unicamente à leitura e à literatura, disse em seus escritos “cada leitor, quando lê, é um leitor de si mesmo”. O que Proust evidencia nessa frase deixa em aberto uma série de interpretações que podem ser realizadas a partir do hábito entusiástico e não visto como uma obrigação, pela leitura.

Estar em contato com o universo das palavras e nele encontrar uma atividade prazerosa, ao mesmo tempo que nos leva a absorver todo o conhecimento exterior, também nos conduz a uma busca de tudo que representa algo de nós mesmos nesse conhecimento que chega até nós. Em cada nova leitura, ocorre algo semelhante a uma lapidação de nossos desejos e predileções.

Os livros constituem um tipo de transporte de conhecimento diferente da televisão por exemplo, onde as informações são transmitidas a todo o momento, e para tal, só precisa de nossa permissão para a passagem de suas imagens através de nosso córtex. O nível de saber que podemos extrair de um livro possui o mesmo limite de nossa vontade de fazê-lo. E, ao contrário das informações “prontas” da televisão, temos a total liberdade de interpretação, o que confere o aperfeiçoamento de nosso senso crítico e o melhoramento de como nos posicionamos diante do mundo.

O hábito da leitura não possui caráter elitista e nem está associado ao poder aquisitivo. Em qualquer cidade, por menor que seja, há uma biblioteca, basta que tenhamos interesse em desvendar todo o mistério contido nela. Ao ler, nos tornamos mais cultos, mais seguros de nossas convicções, nos expressamos e escrevemos melhor. Medidas públicas devem ser realizadas para garantir essa acessibilidade e assim, seus respectivos países possam brilhar, iluminados pelo sol da cultura.


Há outras redações nota 10 no site do ENEM:
http://www.enem.inep.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=63&Itemid=116

Coesão e Coerência

O texto é produzido por meio da organização de palavras que se unem adequadamente, umas às outras. Asim, os termos vão formando uma oração, e as orações vão constituir períodos. Essa união ou ligação entre os elementos de um texto deve apresentar um sentido lógico, coerente; para isso é necessário observar as relações semânticas existentes entre eles. Na verdade, há uma relação de dependência entre os termos e as orações que se estabelece pela coordenação ou subordinação de idéias... (Oficina de Redação, Leila Lauar Saramento).

A coesão textual é o que vai dar à redação a articulação de idéias tão necessária para a coerência do seu texto. E há vários recursos lingüísticos que podemos utilizar; o uso de conectivos, por exemplo.

Causa e conseqüência, explicação: por conseguinte, por isso, de fato, pois, já que, de tal forma que;

Contraste, oposição, restrição, ressalva: exceto, salvo, todavia, menos, pelo contrário, mas, contudo, embora;

Adição, continuação: por outro lado, também, e, nem, não apenas...como também, não só...bem como,além disso, outrossim, ainda mais;

Semelhança, comparação, conformidade: segundo, conforme, igualmente, assim também, da mesma forma, semelhantemente, por analogia, de acordo com, tal qual, como, assim como, do mesmo modo, bem como, de maneira idêntica;

Prioridade, relevância: principalmente, sobretudo, antes de mais nada, primeiramente, acima de tudo, em primeiro lugar;

Condição, hipótese: se acaso, eventualmente;

Alternativa
: ou...ou, ora...ora, quer...quer, seja...seja, já...já, nem...nem;

Surpresa, imprevisto: de repente, inesperadamente, de súbito;

Ilustração, esclarecimento: quer dizer, isto é, por exemplo, ou seja;

Resumo, recapitulação, conclusão
: em síntese, em resumo, enfim, em suma, portanto, assim, dessa forma, logo, pois, dessa maneira;

Lugar, proximidade, distância: próximo a, perto de, além, acolá, aqui, onde, aonde, em que;

Dúvida
: quem sabe, é provável, talvez, possivelmente, quiçá;

Tempo, freqüência, duração, ordem, sucessão, anterioridade, posterioridade: enfim, logo, então, logo depois, imediatamente, logo após, a princípio, agora, atualmente, sempre, raramente, desde que, já, enquanto, quando, não raro, mal, apenas;

Certeza, ênfase: certamente, sem dúvida, inegavelmente, com toda a certeza;

Propósito, intenção, finalidade: a fim de que, com o fim de, para que, com o propósito de.

01/08/08

Clarice e a escrita


Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade" refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

Texto extraído do livro "A Descoberta do Mundo", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1999.